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O que aconteceu com o Quantum?

Após uma trágica sequência de eventos, que tiveram início em agosto de 2019 e de certa forma perduram até hoje, a Atlas tem começado a demonstrar esforços concretos para se reinventar e se reerguer.

Ainda durante o início da crise, enquanto alguns clientes ainda discutiam entre si e acionavam seus consultores em busca de respostas da empresa para as suspeitas de fraude encontradas no vídeo por ela divulgado, onde supostamente eram acessados saldos em contas na Poloniex, na HitBTC e na Gate.io, a Atlas adquire e incorpora a Anúbis, empresa então “concorrente”, adquirindo assim um robô de trading, desenvolvido por Matheus Grijó (o então dono da Anúbis), com retorno e “risco” similares ao Quantum, juntamente com sua carteira de clientes.

Meses depois, já em 2020 e após um longo período de silêncio, a Atlas lança o Phoenix, um algoritmo de trading alavancado agressivo na BitMEX, também desenvolvido por Grijó, com retorno e risco bem maiores, mas que, tendo em vista tratar-se de um algoritmo que funciona por API, elimina a necessidade de confiar à Atlas a custódia dos valores. A maioria dos clientes do Phoenix, entretanto, foi liquidada, juntamente com boa parte do mercado, no dia 12 de março de 2020, quando o preço do bitcoin chegou a atingir -41,29% da máxima do dia, chegando a atingir ainda, no dia seguinte, -54,86% em relação à máxima do dia 12.

Hoje, apenas 24 horas após o anúncio, feito no dia 24, da execução de manutenção na plataforma para atualização, que duraria até 72 horas, a Atlas inadvertidamente lançou sua exchange (também chamada Quantum) e seus novos tokens ERC-20: o BTCQ, o USDQ e o BRLQ, juntamente com pares para sua negociação na plataforma.

Reafirmou ainda, na mesma ocasião, por meio de anúncio no site, que todos os tokens seriam eventualmente recomprados por meio do emprego mensal de 10% do lucro do portfólio para esse fim.

Tais medidas, especialmente o lançamento da exchange, por oferecerem à Atlas inúmeras oportunidades, inclusive de redução da dívida por meio da cobrança de taxas sobre a movimentação dos saldos antigos, tokenizados, e de obtenção de receita oriunda de novos aportes e eventual sucesso dos novos produtos, são promissoras.

Por outro lado, embora à clientela não reste muito além de esperar que a receita conjunta da Anúbis, da Phoenix e da exchange supere suas despesas em medida suficiente para permitir recompras substanciais, não há como não se perguntar o que aconteceu com o Quantum, o algoritmo de arbitragem automatizada de criptomoedas que, de acordo com os números fornecidos pela Atlas, obtinha diariamente rendimentos de até aproximadamente 70% ao ano, sem um único dia de prejuízo de que se tenha registro.

O “começo do fim” se deu quando os pedidos de saque, que começaram a atrasar cada vez mais, foram completamente suspensos pela empresa sob a alegativa de iliquidez causada por dificuldades enfrentadas em processos de verificações KYC/KYT em andamento em todas as exchanges em que o Quantum opera. Em meio a notificações da CVM, ações judiciais, relatórios de PPA, clientes irritados, vídeos controversos, sessões parlamentares, acusações públicas de falsificação por contas oficiais de exchanges onde a Atlas afirma operar o Quantum e demissões em massa de funcionários, os rendimentos do Quantum pararam de ser creditados na plataforma. Nada mais se falou sobre o Quantum ou seus rendimentos desde então.

No meio da confusão a Atlas ainda chegou a anunciar a integração de ferramentas KYC/KYT à plataforma, mas nada chegou a ser feito e sobre isso também nada mais se falou posteriormente.

A importância de saber o que aconteceu com o Quantum reside no fato de que seu alto rendimento, baixo risco e consistência perfeita (pressupondo que ele de fato existia, fazia o que alegava fazer e de fato obtinha os resultados que alegava obter) faziam do Quantum um algoritmo de performance sem precedentes na história do mercado financeiro.

Não faz absolutamente nenhum sentido deixá-lo de fora do portfólio, e tanto não é oportuno quanto não é necessário, tendo em vista que se trata de um algoritmo – segundo a Atlas por ela desenvolvido e operado – que, ao contrário dos valores que opera, não está sujeito a nenhum tipo de bloqueio para verificações KYC/KYT em qualquer exchange.

A Atlas deve, portanto, se necessário, abrir novas contas em exchanges reconhecidamente idôneas, cumprir, antes de tudo, com todas as exigências referentes a verificações KYC/KYT em todas elas e, então, voltar a oferecer os serviços do Quantum, o que nem mesmo precisa implicar em interrupção da arbiragem em andamento, com os bitcoins bloqueados, nas exchanges “traidoras” (tendo em vista a alegativa da Atlas de que tal arbitragem persiste e apenas os saques estão bloqueados), pois, tratando-se de um algoritmo, este pode ser instanciado para passar a realizar simultaneamente esta nova tarefa: um novo produto de arbitragem a ser executada pelo mesmo Quantum, com novas contas, novos bitcoins e o mais importante: execução de saques.

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A Atlas, a nova plataforma e o “saldo migrado”

A Atlas publicou o seguinte em sua página no Facebook:

Vem aí o NOVO QUANTUM. Com a chegada da nova plataforma, nossos clientes irão usufruir de uma nova interface para…

Posted by Atlas Quantum on Thursday, January 16, 2020

Segundo a publicação, o “Saldo Migrado”, que chamaremos de bitatlas (BTA – os bitcoins depositados na Atlas até o início da crise, que hoje não podem ser sacados), poderá ser negociado entre os clientes, que por ele pagarão bitcoins (BTC – os bitcoins depositados após a crise, que a Atlas promete que poderão, sim, ser sacados) na proporção em que desejarem. As ordens comporão um book na nova plataforma e as forças de mercado determinarão o preço do bitatlas em bitcoins.

A publicação não menciona, entretanto, qualquer outra utilidade do bitatlas para seu portador que não seja a possibilidade de venda para um potencial comprador interessado. O problema é que, na ausência de uma utilidade além da possibilidade de negociação, o bitatlas não teria valor algum e, portanto, não haveriam compradores racionais.

Nesse caso, o surgimento de eventuais compradores (certamente anônimos no book) seria altamente suspeito, pois, dada a ausência de valor do bitatlas, somente a própria empresa, a Atlas, teria interesse em comprá-lo com deságio – diretamente ou por meio de terceiros – pois seria efetivamente uma forma de pagar menos pelo que deve “com a concordância do cliente” (apesar de acreditar este estar vendendo para outro cliente) e diminuir a própria dívida com deságio.

Tal hipótese seria, obviamente, altamente discutível do ponto de vista ético e faria surgir um enorme conflito de interesses, pois, além do fato de que não haveriam compradores legitimamente interessados além da própria empresa, o interesse econômico natural e inevitável da Atlas, que estaria, na hipótese, recomprando a própria dívida com deságio, seria o de aumentar o deságio, e não o contrário.

Não acredito, entretanto, que venha a ser assim.

Em 12 de dezembro do ano passado, em reunião com um grupo de investidores, chamado de “a comissão” por participantes dos grupos da Atlas no Telegram, o Rodrigo teria afirmado que, como parte do plano de recuperação da empresa, uma parcela do lucro obtido com o Fênix (seu novo produto, um algoritmo de trading alavancado na Bitmex) seria destinada à quitação da dívida (os bitatlas).

Tal afirmação estaria em linha com a iniciativa de recompra da empresa, anunciada em 1º de novembro de 2019, no blog da Atlas.

A recompra, entretanto, nos moldes do anúncio, não durou muito tempo. Além do fato de que apenas os maiores investidores participavam, pois as inserções e remoções de ordens do book (que era invisível) eram solicitadas por meio de envio de e-mail a consultores, os valores em reais (BRL) obtidos com a recompra não puderam ser sacados por todos. Muitos reportaram que os saques (pequenos valores de BRL) simplesmente não estavam sendo honrados. A Atlas alegou a existência de inconsistências e bugs na plataforma como justificativa para o problema e a última recompra ocorreu no dia 21 de novembro.

A retomada da recompra de bitatlas de forma ordenada, com parcela do lucro do Fênix ou de qualquer outra fonte de renda da Atlas, juntamente com o efetivo pagamento dos saques solicitados, por sua vez, seriam indiscutivelmente aptos a conferir valor ao bitatlas (em razão da expectativa do portador de por cada bitatlas receber um bitcoin, ainda que em momento futuro e incerto) e, aí sim, despertar o interesse legítimo de compradores racionais e fazer com que a diminuição do deságio seja plena e naturalmente possível dentro das leis naturais da economia e do mercado.

É assim que acredito (ou melhor, espero) que venha a ser.

A Atlas deve, entretanto, o mais rapidamente possível, esclarecer tal fato e reiterar seu compromisso com a recompra, pois a ausência de menção à iniciativa na publicação pode induzir a erro.

Ao fazer tal esclarecimento, restará evidente aos clientes que o anúncio da nova plataforma trata-se somente do cumprimento de promessas anteriores de remoção dos bugs e de efetiva integração do mercado informal de bitatlas à plataforma juntamente com um book visível, transparente e aberto a todos (e não somente aos maiores investidores).

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A Atlas, o KYC e as acusações da HitBTC e da Gate.io

A Atlas é uma empresa brasileira que atua no ramo de criptoativos, fundada por Rodrigo Marques dos Santos e Fabrício Spiazzi Sanfelice, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas e sediada em São Paulo. A empresa afirma operar em exchanges internacionais e realizar arbitragem automatizada com criptomoedas, notadamente o bitcoin e o Tether, para obter seus rendimentos. Seu principal produto é o Quantum, algoritmo que a empresa afirma ser responsável pelas operações de arbitragem. Em seu site a Atlas afirma ter mais de 25 mil clientes e mais de US$ 100 milhões sob gestão.

No dia 13 de agosto, provavelmente como consequência do marketing agressivo da empresa, que incluia a contratação de artistas famosos e a exibição de comerciais em horário nobre na TV aberta, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia brasileira reguladora do mercado de valores mobiliários, proibiu a Atlas de ofertar os serviços de arbitragem automatizada, sob pena de multa diária, afirmando tratar-se de Contrato de Investimento Coletivo irregular.

Os investidores, assustados com a proibição, apressaram-se para resgatar seus bitcoins. As execuções dos pedidos de saque, que obedeciam ao prazo de D+1 estabelecido no contrato, começaram a atrasar. A empresa, então, passou a informar, por meio dos consultores da plataforma de suporte, que, em razão de dificuldades no processamento da quantidade atipicamente elevada de saques, suas execuções atrasariam um pouco, mas incluiriam os rendimentos correspondentes à duração do atraso acrescidos de um bônus de 25%.

No dia 29 de agosto, alegando o enfrentamento de problemas junto às exchanges em que operava, que estariam exigindo verificações KYC/KYT em razão do volume atipicamente elevado de retiradas, a Atlas anunciou o dia 29 de setembro, um mês à frente, como o prazo final para as execuções de todos os saques pendentes.

Antes mesmo do dia 29, por meio de um comunicado, no dia 18 de setembro, a Atlas anunciou que, embora a empresa continuasse trabalhando arduamente para o cumprimento das exigências feitas pelas exchanges, não havia mais prazo para o retorno dos saques à normalidade, e divulgou um vídeo em que supostamente eram acessadas contas da Atlas junto às exchanges Poloniex, Gate.io e HitBTC a fim de provar sua solvência aos investidores.

Vários investidores se apressaram para contactar a HitBTC e a Gate.io, por meio de e-mails, do Telegram e do Twitter, em alguns casos fazendo ameaças, a fim de exigir a imediata aprovação do KYC da Atlas.

No dia 25 de setembro, a Atlas anunciou a compra e a futura integração da Anubis, uma empresa menor, que também atua no ramo de criptoativos realizando trading automatizado de criptomoedas. O anúncio assustou os investidores da Anubis, que também se apressaram para resgatar seus bitcoins. A quantidade de bitcoins sob gestão da empresa diminuiu de cerca de 270 para pouco menos de 150.

Paralelamente, o vídeo divulgado pela Atlas gerava controvérsias. No vídeo, os saldos em Tether das contas acessadas das exchanges Gate.io e HitBTC se apresentavam na cor cinza, normalmente utilizada para os saldos zerados, contrastando com os saldos em bitcoin, que se apresentavam na cor preta, e com os botões de depósito e de saque desabilitados, contrastando com os botões dos saldos em bitcoin. Além disso, em dois dos acessos às contas da Gate.io foi possível visualizar o número identificador da conta acessada, normalmente embaçado nos outros acessos, e verificar tratarem-se da mesma conta, que entretanto exibia saldos ligeiramente diferentes em cada acesso.

Suspeitas de fraude fizeram com que alguns investidores contactassem a HitBTC e a Gate.io para confirmar a veracidade das informações acerca do suposto processo de verificação KYC e do conteúdo do vídeo fornecido pela Atlas. Pressionada, a HitBTC afirmou, por meio de um tweet, que a Atlas falsificou a parte do vídeo onde mostrava seus supostos saldos nas contas da HitBTC e que nunca foram contactados pela empresa. No dia seguinte, a Gate.io afirmou o mesmo.

Antes mesmo das manifestações públicas da HitBTC e da Gate.io, alguns investidores enviaram as evidências de fraude encontradas no vídeo a seus consultores comerciais pelo WhatsApp e pediram para que a Atlas se manifestasse. Os consultores responderam somente que o vídeo havia sido confeccionado pela equipe de investimento, chefiada por Tiago Lavorato Franco, e que encaminhariam as preocupações à diretoria, mas a Atlas não se manifestou.

No dia 3 de outubro, por meio de um comunicado, a Atlas afirmou que continuava avançando no cumprimento das exigências feitas pelas exchanges a despeito de ter sido surpreendida por “táticas de procrastinação, comunicações assimétricas e até mesmo gestores de má-fé”, mas não se manifestou sobre o vídeo.