A Atlas, o KYC e as Acusações da HitBTC e da Gate.io

A Atlas é uma empresa brasileira que atua no ramo de criptoativos, fundada por Rodrigo Marques dos Santos e Fabrício Spiazzi Sanfelice, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas e sediada em São Paulo. A empresa afirma operar em exchanges internacionais e realizar arbitragem automatizada com criptomoedas, notadamente o bitcoin e o Tether, para obter seus rendimentos. Seu principal produto é o Quantum, algoritmo que a empresa afirma ser responsável pelas operações de arbitragem. Em seu site a Atlas afirma ter mais de 25 mil clientes e mais de US$ 100 milhões sob gestão.

No dia 13 de agosto, provavelmente como consequência do marketing agressivo da empresa, que incluia a contratação de artistas famosos e a exibição de comerciais em horário nobre na TV aberta, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia brasileira reguladora do mercado de valores mobiliários, proibiu a Atlas de ofertar os serviços de arbitragem automatizada, sob pena de multa diária, afirmando tratar-se de Contrato de Investimento Coletivo irregular.

Os investidores, assustados com a proibição, apressaram-se para resgatar seus bitcoins. As execuções dos pedidos de saque, que obedeciam ao prazo de D+1 estabelecido no contrato, começaram a atrasar. A empresa, então, passou a informar, por meio dos consultores da plataforma de suporte, que, em razão de dificuldades no processamento da quantidade atipicamente elevada de saques, suas execuções atrasariam um pouco, mas incluiriam os rendimentos correspondentes à duração do atraso acrescidos de um bônus de 25%.

No dia 29 de agosto, alegando o enfrentamento de problemas junto às exchanges em que operava, que estariam exigindo verificações KYC/KYT em razão do volume atipicamente elevado de retiradas, a Atlas anunciou o dia 29 de setembro, um mês à frente, como o prazo final para as execuções de todos os saques pendentes.

Antes mesmo do dia 29, por meio de um comunicado, no dia 18 de setembro, a Atlas anunciou que, embora a empresa continuasse trabalhando arduamente para o cumprimento das exigências feitas pelas exchanges, não havia mais prazo para o retorno dos saques à normalidade, e divulgou um vídeo em que supostamente eram acessadas contas da Atlas junto às exchanges Poloniex, Gate.io e HitBTC a fim de provar sua solvência aos investidores.

Vários investidores se apressaram para contactar a HitBTC e a Gate.io, por meio de e-mails, do Telegram e do Twitter, em alguns casos fazendo ameaças, a fim de exigir a imediata aprovação do KYC da Atlas.

No dia 25 de setembro, a Atlas anunciou a compra e a futura integração da Anubis, uma empresa menor, que também atua no ramo de criptoativos realizando trading automatizado de criptomoedas. O anúncio assustou os investidores da Anubis, que também se apressaram para resgatar seus bitcoins. A quantidade de bitcoins sob gestão da empresa diminuiu de cerca de 270 para pouco menos de 150.

Paralelamente, o vídeo divulgado pela Atlas gerava controvérsias. No vídeo, os saldos em Tether das contas acessadas das exchanges Gate.io e HitBTC se apresentavam na cor cinza, normalmente utilizada para os saldos zerados, contrastando com os saldos em bitcoin, que se apresentavam na cor preta, e com os botões de depósito e de saque desabilitados, contrastando com os botões dos saldos em bitcoin. Além disso, em dois dos acessos às contas da Gate.io foi possível visualizar o número identificador da conta acessada, normalmente embaçado nos outros acessos, e verificar tratarem-se da mesma conta, que entretanto exibia saldos ligeiramente diferentes em cada acesso.

Suspeitas de fraude fizeram com que alguns investidores contactassem a HitBTC e a Gate.io para confirmar a veracidade das informações acerca do suposto processo de verificação KYC e do conteúdo do vídeo fornecidos pela Atlas. Pressionada, a HitBTC afirmou, por meio de um tweet, que a Atlas falsificou a parte do vídeo onde mostrava seus supostos saldos nas contas da HitBTC e que nunca foram contactados pela empresa. No dia seguinte, a Gate.io afirmou o mesmo.

Antes mesmo das manifestações públicas da HitBTC e da Gate.io, alguns investidores enviaram as evidências de fraude encontradas no vídeo a seus consultores comerciais pelo WhatsApp e pediram para que a Atlas se manifestasse. Os consultores responderam somente que o vídeo havia sido confeccionado pela equipe de investimento, chefiada por Tiago Lavorato Franco, e que encaminhariam as preocupações à diretoria, mas a Atlas não se manifestou.

No dia 3 de outubro, por meio de um comunicado, a Atlas afirmou que continuava avançando no cumprimento das exigências feitas pelas exchanges a despeito de ter sido surpreendida por “táticas de procrastinação, comunicações assimétricas e até mesmo gestores de má-fé”, mas não se manifestou sobre o vídeo.